Rogue One: a Star Wars Story

Nunca mais ouviremos a frase “Muito morreram para termos acesso aos planos da Estrela da Morte” de ânimo leve.

Rogue One: a Star Wars Story conta a história de Jyn (Felicity Jones), uma rapariga que é convencido pela Aliança Rebelde a roubar os planos de construção da maior arma da Galáxia, a Estrela da Morte. Esta arma, detida pelo Império, consegue destruir planetas inteiros num só golpe.

Na verdade, a história do Rogue One tenta corrigir um dos maiores erros de argumento da trilogia original. No Episódio IV, Luke Skywalker consegue aniquilar a tal “maior arma da Galáxia” com um único tiro do seu X-Wing, provocando uma reacção em cadeia que termina com a destruição da primeira Estrela da Morte. Pouco credível, certo? Finalmente, dispomos de uma resposta razoavelmente consistente para quem apontava esta inverosimilhança de forma trocista.

Confesso que ainda tenho medo quando me sento num cinema à espera de um novo Star Wars. Apesar da boa surpresa que foi o episódio VII, tenho feridas por cicatrizar dos Episódios I e II em forma de cabeça de Jar Jar. Assim, esperava um bom filme, mas havia o receio de nova desilusão. E assaltavam-me questões típicas de cromo enquanto suportava os 30 minutos de publicidade na sala: haveria opening crawl em letras amarelas a perder-se no espaço? Michael Giacchino usaria trechos da Imperial March ou da Throne Room de John Williams na sua banda sonora? Acontece que, assim que o filme começou, esqueci-me disso tudo, porque estava perante uma história de Star Wars e não perante um filme Star Wars. Confusos? Não temam.

O Rogue One é um filme de guerra. Influenciado por duas décadas de conflitos no Iraque, Afeganistão e Síria. A primeira metade das duas horas e quinze minutos é passada no meio de terroristas ou insurgentes, consoante a perspectiva de cada um. Conhecemos uma visão da Aliança Rebelde inaudita em outros filmes: as pessoas que estão em guerra fazem coisas más. Até agora, os rebeldes eram impolutos. Han Solo podia ser meio vigarista, mas era um vigarista simpático. Aqui, não há jedis, lutas de sabres de luz ou manifestações sobrenaturais da Força. Há pessoas. Com virtudes e defeitos. Uns acreditam na Força e outros não. Há rebeldes com diferentes lealdades. Temos um Forest Whitaker excelente na pele de extremista derrotado. Um Diego Luna brilhante na interpretação minimalista de um homem que faz o que tem de ser feito. Ainda que isso seja matar inocentes. Ben Mendelshon e Peter Cushing (que morreu em 1994, mas a tecnologia ressuscitou) são dois oficiais que passam o filme em luta para subir na hierarquia do Império. Há gente a trocar de lado: pilotos do Império a trair a causa, rebeldes que se querem render, cansados de lutar, e droides que podem ser reprogramados. Cheira a filme de guerra e espionagem? É porque é!

Se há coisa que a malta da Star Wars sabe fazer é imaginar droides. Depois dos clássicos R2D2 e C3PO (com direito a cameo) e ao amoroso BB8, conhecemos o K-2SO, um brutamontes do Império que se torna o mais fiel dos droides rebeldes. Sem papas na língua, conquista-nos ao longo do filme. Há as inevitáveis piadas para os fãs: uma referência à cantina de Mos Eisley e a frase “I have a bad feeling about this” está (quase) presente.

O Rogue One será o filme mais marcadamente político da saga: a ideia de rebelião contra a tirania do Império que atravessa a narrativa é evidente e fez correr muita tinta nos Estados Unidos. Se os Episódios IV a VI se centravam no tema, este filme tem-no no seu âmago.

A meio caminho, dão-nos a resolução do drama inicial: o pai que desapareceu e deixou a filha sozinha acaba por se juntar a ela. E o que ficou por explicar durante quinze anos torna-se claro. Na segunda metade do filme, já estamos claramente em território conhecido: os bons entram pelo Império adentro para levar a cabo a sua missão. Claro que a cumprem (isso já sabíamos), mas a equipa de renegados acaba por conquistar uma redenção. E é disso que o Rogue One quer falar.

O trabalho de Gareth Edwards na realização é competente. Manteve o ambiente futurista sujo e realista da trilogia original, muito diferente da confusão cartoonesca dos Episódios I, II e III. E as cenas de batalhas, sobretudo as disputadas entre X-Wings e TIE-Fighters, são espantosas. Na medida certa. Não exagera na dose.

É claro que o Darth Vader ainda mete medo. Há 30 segundos, muito perto do fim, em que nos lembramos da razão de ele ser o melhor vilão de sempre. Mas a história não é sobre isso. Esta história é sobre pessoas normais que fazem a coisa certa. Seja qual for o seu passado. Todos nós sonhámos em estar num Star Wars, certo? Eramos jedis, simulávamos lutas de sabres de luz e usávamos a Força para trazer o comando da televisão para mais perto de nós. O Rogue One explica-nos que podemos fazer parte da Aliança Rebelde sendo… nós próprios. A Força não nos pediria mais que isso.

O filme é bom, pá.

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