A caminho da Inauguration: LINCOLN

Pode um homem mudar o curso da História?

Sim. E não. A obsessão com que Abraham Lincoln perseguiu a aprovação da 13ª Emenda (abolindo a escravatura nos Estados Unidos) fez com que a sociedade americana se alterasse para sempre. No entanto, sem a acção de um grupo alargado que defendia a mesma causa ou se juntou a ela, a tarefa seria impossível.

Steven Spielberg (ET, A Lista de Schindler) mostra este paradoxo no biopic Lincoln (2012) que retrata os últimos quatro meses de vida de um dos mais conhecidos presidentes americanos: quando a Emenda é finalmente votada pela Câmara dos Representantes, Lincoln nem está presente na sala, preferindo ler o correio e brincar com o seu filho na Casa Branca. Mas é ele o responsável pelo processo e tem numa intervenção fulcral para o sucesso da votação.

A acção narrada em Lincoln – o fim da sangrenta Guerra Civil, a luta pela aprovação da Emenda e o assassinato do político do Kentucky – é passada há um século e meio. No entanto, Spielberg falou para uma América que, em 2012, tinha Obama como presidente, mas, ao mesmo tempo, ocupava Wall Street, tinha etnias vítimas de violência policial desajustada e via os seus empregos deslocalizarem-se para outros países. E a pergunta e a difícil resposta são formuladas por Thaddeus Stevens, representante da Pensilvânia e encarnado por Tommy Lee Jones: achamo-nos mesmo iguais? No nosso íntimo, achamo-nos iguais a quem nos rodeia? Provavelmente, não. Assim, é a lei que tem de garantir essa igualdade. Independentemente do que achamos, há um contrato social a que devemos obedecer e que nos mantém unidos. E que nos faz aceitar essa igualdade perante a lei.

Este filme poderá ser criticado pelo início lento e descritivo. Mas vale a pena o investimento: começa como biografia e transforma-se num thriller político à medida que nos aproximamos do seu final. E tem a sorte de contar com Daniel Day-Lewis no papel de Lincoln. É das mais espantosas interpretações que Hollywood ofereceu ao mundo, confirmando o estatuto do inglês como um actor de eleição. O retrato que faz do político é perfeito no maneirismo, na entoação, na linguagem, no olhar e, sobretudo, na fluidez com que esta mistura nos é entregue. Ao seu lado, Tommy Lee Jones e Sally Field, no papel de Mary Todd Lincoln, a primeira-dama, são excelentes companheiros de ecrã. Tarefa difícil, considerando a facilidade com que Day-Lewis rouba a nossa atenção a cada aparição. Darmos por eles é o melhor elogio que podemos fazer à sua actuação.

As biografias das grandes figuras da História têm tendência a tornarem-se hagiografias. No entanto, Spielberg oferece-nos uma visão do quotidiano de Lincoln que o humaniza: a atenção que dá à saúde da mulher, o desespero por não conseguir lidar com ela, a preocupação com o futuro dos filhos, as recriminações (mal) assumidas pela morte de um deles… O que tem mais peso? A culpa pela morte de centenas de milhar de americanos na Guerra Civil ou pela morte de um filho, vitimado pela febre tifóide? É neste limbo que Spielberg se sente mais confortável e mostra a sua excelência como realizador.

Lincoln é a história de um homem. Que por ter grande poder fez grandes coisas. Mas que assistiu impotente às surpresas da vida.

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