A caminho da Inauguration: NIXON

Um dos primeiros planos de Nixon (1995) surpreende. Estamos habituados a ver a Casa Branca como um edifício onírico e imaculado. Apesar nunca deixar de projectar poder, as suas representações mantêm a alvura de Camelot. Oliver Stone (Assassinos Natos, Platoon) prefere apresentar-nos a Casa Branca como uma espécie de Castelo do Drácula, negro, com relâmpagos a faiscarem e a música de John Williams potenciando o efeito. Percebemos que Nixon não é um filme sobre gente bonita.

Na verdade, o presidente retratado por Anthony Hopkins (Silêncio dos Inocentes, Amistad) tem um único objectivo: ser amado. Nixon, na visão de Oliver Stone, nunca foi amado. Em criança viu os seus dois irmãos morrerem. O destino do nome, da honra e da reputação da sua família, pobre e trabalhadora como ele gostava de dizer como se fosse uma medalha, ficou a depender de si. Nunca foi extraordinário em nada. Percebemos isso numa série de flashbacks em que ele persegue as suas memórias. Estas recordações são-nos oferecidas de uma forma curiosa: imitando a técnica e a qualidade da imagem da altura (a cores, a preto e branco, com grão). Mas não passa de uma curiosidade: não acrescenta valor à narrativa e acaba por ser uma muleta decepcionante. Nixon compensou a sua vulgaridade com uma tenacidade que o fez perseguir o poder por todos os meios. Apenas para ser amado. Como Kennedy foi amado. A relação de Nixon com JFK é a de um inimigo figadal que, por outro lado, se sente deslumbrado pelo encantamento do político. A sua outra referência é, inevitavelmente, Lincoln. Que também se manchou com o sangue de milhares de soldados e conseguiu mudar o rosto da América.

No entanto, o homem que teve o mundo na mão, fez o cessar-fogo no Vietname, negociou acordos nucleares com a Rússia e encontrou um aliado na China, nunca conseguiu que gostassem dele. Usando o sistema para ascender ao poder, acabou por ser usado por ele. Esse poder anónimo, multicéfalo, que ainda existe, e que sobreviverá por todos os meios ao seu dispor. Nixon percebe isso (e nós por ele) no diálogo que mantém com um gripo de estudantes em manifestação. Esse sistema ou poder não teve problemas em ressuscitar fantasmas e fazer de Nixon o único presidente americano a demitir-se (até hoje).

O trabalho de Anthony Hopkins é válido. Consegue transmitir a insegurança que se escondia por debaixo da carapaça do homem mais poderoso do mundo. O actor afirmou que adormecia a ver documentários sobre Nixon para que estas imagens dominassem o seu subconsciente. Apesar desse esforço, não é dos seus melhores trabalhos do actor. A figura sai forçada: sabemos sempre que estamos a ver Hopkins a fazer de Nixon. Muito longe, por exemplo, do desempenho de Frank Langella em Frost/Nixon.

Em resumo, Nixon é um filme importante para percebermos como o diabo não são os políticos. O diabo é a máquina que gera, alimenta e indica o caminho aos políticos.

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