BEM-VINDOS A MARLY-GOMONT ou como um filho ama o seu pai

Bem-Vindos a Marly-Gomont (2016) engana. De início, apresenta-se como uma comédia, mas depressa percebemos que estamos perante uma carta de amor escrita por um filho e dirigida ao seu pai. Kamini, um conhecido rapper francês, co-escreveu o argumento baseando-se na história da sua família.

Apesar de usar as memórias de infância de um filho de zairenses, nascido nos anos 70, e criado numa comunidade rural conservadora francesa, este filme está pejado de lugares-comuns que serão a sua maior pecha do ponto de vista narrativo (os racistas muito racistas, o homem mal-encarado, mas de bom coração, os parvos da aldeia que são…, parvos).

A história de Bem-Vindos a Marly-Gomont conta-se em três frases. Zantoko nasceu no Zaire e terminou o curso de medicina em França. A única hipótese de obter a nacionalidade francesa é tornando-se o médico de Marly-Gomont, um vilarejo rural perdido algures a norte de Paris. Como a acção se passa nos anos 70, a sua chegada provoca um inevitável choque de culturas e o racismo latente é o combustível que faz avançar a trama.

Bem-Vindos a Maly-Gomont, realizado por Julien Rambaldi (Les Meilleurs Amis du Monde, Scotch) acerta no alvo quando nos mostra a luta de Seyolo Zontoko, com uma excelente interpretação de Marc Zinga, para ser considerado como um igual pelos outros aldeões.

A sua preocupação estende-se ao resto da família: é necessário que abdiquem da sua cultura, da sua língua, dos seus hábitos e dos seus gostos para serem aceites. Uma aculturação que acarrearia, enfim, a igualdade. Os filhos obedecem-lhe apenas para verem a sua identidade ser coarctada e continuarem a ser alvos de atitudes racistas. A principal resistência vem da mulher, Anne Zantoko, com um magnífico desempenho de Aïssa Mäiga. Ela sabe que, por muito que emulem os hábitos dos outros, eles terão sempre uma cor diferente.

E é na solução para este dilema que reside a beleza do filme: quando explica que a aceitação se faz assumindo o que o outro é e não pela supremacia do que sou. Todos ficam mais ricos se aceitarem a cultura alheia. Veja-se a cena da Missa do Galo em que um cântico religioso aborrecido, cantado pela comunidade de Marly-Gomont, se torna num festival de fogo-de-artifício quando a família (alargada) Zantoko resolve juntar-se à celebração.

Bem-Vindos a Marly-Gomont, sem ser um filme perfeito, é suficientemente bom para comover e fazer rir ao longo de hora e meia.

 

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