Sabe o que tem de fazer para ganhar um Óscar?

Martha Ruiz e Brian Cullinan passam despercebidos por entre a cascata de vestidos Armani, microfones do E! e das objectivas à procura de (mais) uma queda da Jennifer Lawrence na passadeira vermelha.  No entanto, sem estes dois contabilistas da PriceWaterhouseCoopers não haveria cerimónia dos Óscares. O processo de selecção dos vencedores dos prémios da Academia das Artes e Ciências Cinematográficas é digno de um filme. E estes dois desconhecidos são os seus protagonistas.

Vamos imaginar que nós – a equipa do Cinema Palmeiras e os nossos queridos leitores – fazíamos um filme. Chamava-se O Cinema Palmeiras é espectacular  e, sem falsas modéstias, era excelente. Seria, então, natural que sonhássemos ganhar o Óscar para Melhor Filme. Primeiro problema: para concorrer ao Melhor Filme O Cinema Palmeiras é espectacular teria de ser falado em inglês. Sem problemas para nós, anglófilos. A partir de agora o seu título é Cinema Palmeiras is amazing.

Como poderíamos pôr Cinema Palmeiras is amazing a concorrer aos Óscares?

Em primeiro lugar, não podia ter menos de 40 minutos de duração (Marty ganhou o Óscar para melhor filme em 1956. Com 90 minutos de duração foi o filme mais curto a alguma vez ganhar a estatueta). Além disso, teríamos de arranjar maneira de o ter em exibição num cinema pago em LA County durante, pelo menos, sete dias do ano anterior à cerimónia. Assim se percebe que a altura do Natal tenha catadupas de estreias de grandes filmes: é a época alta das salas de cinema e quando se escolherem os nomeados e vencedores todos estes filmes ainda estão na cabeça dos críticos, eleitores e público. A única excepção a esta regra tem a ver com os candidatos a Melhor Filme Estrangeiro (aqueles que são falados em língua não inglesa): neste caso a candidatura é proposta e não tem de passar nos cinemas americanos (é admitida uma candidatura por país). Por fim, os créditos finais da nossa pelicula teriam de corresponder ao formato das categorias impostas pela Academia.

Muito bem! Cumprimos todos os critérios. Podemos ser merecidamente nomeados? Cada membro da Academia – e existem mais de 6.000 – recebe uma carta no final de Dezembro. Vem em nome da Academia, mas, na verdade, é a PriceWaterouseCoopers quem a enviou. Este membro poderá escolher cinco candidatos para a sua categoria: os actores votam nos melhores actores (principais e secundários), os realizadores nos melhores realizadores e assim sucessivamente. Todos os membros, independentemente da sua categoria, escolhem ainda cinco candidatos a melhor filme. Depois de inscreverem a sua selecção no documento, devolvem a carta ao remetente. Convém que se tenham lembrado de registar Cinema Palmeiras is amazing na lista. Mais uma vez há excepções: os nomeados para Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Documentários são escolhidos com recurso a painéis especializados e não são votados da mesma forma.

Mas quem são os membros da Academia que podem escolher o nosso filme? Qualquer pessoa pode ser membro da Academia de três formas. A mais fácil é ser nomeado para um Óscar pois todos os nomeados tornam-se membros automáticos. Se não conseguirem, podem pedir a algum membro da Academia que vos recomende. A direcção vai julgar se contribuíram de forma relevante para a indústria do cinema. Se for o caso, é provável que aceitem a recomendação e vos inscrevam. Por fim, a última alternativa é porem-se a trabalhar. Um actor com três filmes no curriculum pode inscrever-se. Um realizador com duas longas-metragens no bolso pode solicitar a candidatura. Quem não se lembra da polémica à volta dos #OscarsSoWhite? A indústria queixou-se da falta de diversidade dos nomeados e dos vencedores das últimas edições. Respondendo a essas críticas, a Academia tem tentado aumentar a variedade dos seus membros. Estabeleceu como meta duplicar o número de eleitores que sejam mulheres e minorias até 2020 e passou a obrigar a que o estatuto de membro seja confirmado a cada dez anos. Os eleitores mais velhos, que deixaram de trabalhar, deixam de ser considerados. Antes, a sua presença era vitalícia.

Enviados os envelopes, a PriceWaterhouseCoopers recebe as nomeações e tem de encontrar os cinco candidatos mais votados (no caso do melhor filme o número pode ir até dez). Feita a selecção, a Academia é informada e revela os nomeados. A cerimónia habitual, com pompa e circunstância, foi substituída, este ano, por uma transmissão em directo via youtube. Se tudo corresse bem, receberíamos com alegria, mas pouca surpresa, a notícia de que Cinema Palmeiras is amazing era um dos nomeados.

E agora, temos de ganhar isto! Conhecidos os nomeados, os membros da Academia recebem nova carta. Têm a lista da categoria que lhes corresponde e devem responder em duas semanas. As equipas de Martha Ruiz e Brian Cullinan vão recebendo e contabilizando os resultados. Na verdade, estas duas equipas estão em locais separados e contam os votos à mão. Nunca sabem os resultados obtidos pela outra equipa e, portanto, desconhecem o vencedor ou quem vai à frente na contagem.

Enquanto isso, as produtoras vão organizando as suas campanhas de marketing para puxar os seus filmes para cima. Podem enviar cópias dos filmes para os membros votantes e organizar visualizações especiais, mas estão proibidas de fazer ofertas inapropriadas.

No dia da cerimónia, os dois chefes de equipa – Ruiz e Cullinan – reúnem-se e contabilizam os vencedores. Escrevem-nos à mão, sem usar computadores. E são enviados para o backstage, onde vão entregando os envelopes com os vencedores a quem apresenta as categorias respectivas.

Agora, é cruzar os dedos e aguardar quem chamem o nosso nome. Se não recebermos o Óscar, também somos vencedores. Desde 1998 que a Academia substituiu o “And the winner is…” pelo politicamente correcto “The Oscar goes to…”.

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