THE DROP ou o Tom Hardy Show

 

De vez em quando, vemos um filme que surpreende. À partida, The Drop – O Golpe (2014), de Michael R. Roskam, é só mais um film noir: uma história de gangsters, uns vencidos e outros vencedores, passados de que não se fala e, como se o realizador andasse a fazer bingo com os lugares-comuns, com a acção centrada em Brooklyn.

O contexto resume-se num parágrafo: o Bar de Marv é usado por um rei do crime checheno como local de depósito de dinheiro ilegal (daí o título The Drop). Um dia, o bar é assaltado e esse dinheiro desparece. A partir daí, os ténues equilíbrios que existiam começam a desmoronar-se, revelando histórias do passado que se procuraram esquecer. Até aqui, pensamos que estamos a perder o nosso tempo. Já vimos este filme, ou, pelo menos, esta história dezenas de vezes. No entanto, o desempenho dos actores começa a prender a nossa atenção. E, sem darmos por isso, estamos presos a este O Golpe como se estivéssemos atados a uma cadeira numa cave escura e húmida porque devemos dinheiro de jogo a um tipo de apelido italiano.

As quatro personagens principais dão-nos um exemplo de underperformance soberbo. Tudo está nos pormenores e, sobretudo, no que não se diz. Matthias Schoenaerts é Eric Deeds, um criminoso louco (ou será um louco criminoso?), responsável pelo assassinato de Richie Whelan, ocorrido há dez anos, mas cuja memória continua presente na vizinhança. Noomi Rapace (a Lisbeth Salander da trilogia Millennium original) é Nadia, toxicodependente recuperada e com problemas de automutilação, agora a tentar ser boa pessoa e que cria um pitbull em conjunto com Bob, o protagonista, como se fosse o seu filho. Se eles conseguirem que Rocco, o cachorro, encontrado no lixo, ferido e com fome, singre na vida, haverá esperança para eles, dois feridos da vida que só querem voltar a ter esperança. O Golpe tem a curiosidade adicional de ser o último filme de James Gandolfini (Os Sopranos) que assume a pele de Marvin Stipler, o dono do bar e que está em dívida para com o tal grupo de gansgters chechenos. E Gandolfini simplesmente não consegue ser mau actor. Para o fim guardámos o melhor. Tom Hardy. O homem é especial. O seu Bob Saginowski é, nas palavras de uma das personagens “aquele de quem se espera nada”. E, contudo, consegue ser a figura central da narrativa porque sabemos que, mais cedo ou mais tarde, ele vai mostrar o que é. Faz-nos ansiar por isso, apesar de não sabermos bem quem é este Bob Saginowski, e não queremos ser apanhados desprevenidos quando tal acontecer. Resultado: estamos em pulgas, mesmo quando não se passa nada. A crítica louvou o trabalho de Tom Hardy e os aplausos não foram nada exagerados.

A narrativa está construída, de forma inteligente, numa espiral. Vai-se relevando em camadas e é isso que envolve o espectador. É certo que talvez haja demasiados clichés, mas o filme sobrevive bem. Uma última palavra para a música. Marco Beltrami (Hellboy, Wolverine) cria um ambiente de suspense sem puxar o foco para as suas criações. Uma metáfora para o que cada personagem mais deseja: levar a sua vida adiante sem chamar as atenções.

Em resumo, é um bom drama. Quer mostrar que o passado não desaparece e as pessoas não mudam. Basta um golpe e ficamos expostos.

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