LA LA LAND ou a razão de irmos ao cinema

No início do último acto de La La Land (2016), Seb (Ryan Gosling) e Mia (Emma Stone) perguntam-se «Onde é que estamos?». Falam da sua relação, mas esta é a questão que Damien Chazelle (Whipslash), que escreveu e realizou La La Land, deseja ver respondida com o filme.

La La Land é um musical sobre a história de amor entre Mia e Seb. No entanto, também conta a história de amor entre Los Angeles e aquilo que Seb e Mia representam: a época clássica do jazz e do cinema. Gosling interpreta um pianista que sobrevive tocando em restaurantes e festas de piscina. Sonha abrir um clube de jazz onde se toque de forma autêntica e onde as pessoas regressem aos “bons velhos tempos”. Mia diz-se actriz, por influência de uma tia também actriz. Na verdade, não passa de uma barista num café dos Warner Brothers Studios que é repetidamente recusada em audições. Trabalha no âmago da indústria e vive encadeada pelo seu brilho. O par parte numa viagem nostálgica à época dourada do jazz e do cinema. Aos clássicos que, como disse Seb, a cidade «venera, mas não valoriza». Mas terminada esta viagem pelo passado e pela memória, «onde estamos?». E, sobretudo, para onde vamos se quisermos perseguir os nossos sonhos? Chazelle dá-nos duas versões do caminho que é traçado a partir desse momento. A mais dura, em que cada um faz o que tem de fazer. A mais fácil, em que cada um faz o que quer fazer. É curioso verificar que o resultado final das duas alternativas não é muito diferente para o mundo que rodeia estas personagens. Mas as vidas de Seb e Mia tomarão rumos diferentes consoante as escolhas que façam.

A cena inicial de La La Land é extraordinária e, só por si, merece uma ida ao cinema. Uma mis-en-scène num engarrafamento num viaduto de acesso à cidade de Los Angeles (a cidade é uma personagem dentro do filme, com as suas festas, ruas, colinas e vistas. A cidade dos sonhos que só existe nos sonhos, tal como o viaduto da cena inicial está num plano acima da realidade) transformada em primeiro momento musical com mais de cem pessoas coreografadas num take único (se não foi num único take, pareceu, o que vai dar ao mesmo, ou não é o cinema uma arte da ilusão?) a fazer lembrar as danças de rua do Fame.

A química entre Gosling e Stone é evidente. Complementam-se e constroem a história juntos. A actuação de Emma Stone tem sido mais louvada que a de Ryan Gosling, mas, na verdade, é muito difícil separar um do outro. É como se fossem uma só personagem, dividida entre dois actores.

O início e o final de La La Land são os seus pontos fortes. O filme perde um pouco do brilho a meio da narrativa e é difícil de compreender como um amor tão forte como o de Mia e Seb fica tão abalado à primeira contrariedade. O argumento acaba por não resolver este problema de forma convincente, mas isso nem é o mais importante. La La Land é cinema feel good: romance, música, humor. A recordação de um tempo do cinema e da música que já passou. Mas faz mais do que isso: pergunta-nos o “e agora?”. E agora, podemos refazer tudo porque arte é compromisso. Estamos autorizados a cometer todas as loucuras se acreditarmos nelas. Como, por exemplo, abrir um clube de jazz aonde ninguém quer ir, escrever e protagonizar um monólogo que é um fracasso ou realizar um filme musical, um género morto e enterrado. Pode resultar ou não. Mas podemos fazê-lo. Chamem-nos “lélés da cuca” (uma tradução livre de La La Land). O que interessa o que os outros pensam?

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