A Minha Vida de Courgette é uma obra de arte

Pertenço à geração Vasco Granja. A diversidade de autores, escolas de animação e temáticas com que fui confrontado por este cultivador fez-me crescer enquanto público. Hoje em dia, a ditadura da Disney/Pixar faz com que os miúdos tenham uma espécie de pensamento único no que toca a filmes de animação. Nada contra a Disney/Pixar, atenção! O Wall-E e a o Divertidamente são excelentes filmes, por exemplo. Mas há mais que isso e, se não estivermos atentos, vamos perder maravilhas como A Minha Vida de Courgette (2016) que passará na Monstra esta quarta e quinta-feiras, dias 22 e 23.

O filme, realizado por Claude Barras em stop motion, baseia-se no romance Autobiographie d’une Courgette de Gilles Paris.

Icare é um menino de 9 anos que não tem mãe nem pai. A forma como perde a mãe, logo no início da história, é um murro no estômago do qual não se chega a recuperar. Icare insiste em ser chamado de Courgette uma vez que era a forma como a sua mãe o tratava. O Estado entrega-o a Les Fontaines, um lar para crianças órfãs ou, como eles próprios se intitulam, “aqueles que ninguém quer amar”. Claude Barras oferece-nos um orfanato diferente da caricatura tradicional dos filmes. É um local de acolhimento e de amor, ao invés das habituais instituições opressoras. E a partir desse momento, acompanhamos a vida destas crianças que têm de aprender a gostar delas próprias para que mais alguém as ame.

A Minha Vida de Courgette podia cair num vale de lágrimas com facilidade. Aliás, fica desde já feito o aviso: qualquer pai ou mãe que o veja terá vontade de entrar pelo ecrã adentro para consolar ou cuidar aqueles miúdos. Mas o filme consegue fazer mais do que desenvolver um catálogo de emoções: consegue mostrar aos adultos o que é ser criança, com as suas contradições, simplicidades e medos.

Ao contrário do que acontece com frequência nos filmes de animação, as crianças não são um meio para se contar uma história. São o fim da história. O filme é sobre elas. A narrativa é sombria e não esconde as alusões a abuso de drogas, violações infantis, deportações. Nada é explícito, mas a história e as descrições são evidentes. No entanto, Barras teve a sagacidade de equilibrar esse negrume com uma paleta de cores muito vivas que enchem o ecrã e tornam os bonecos desenxabidos e cheios de olheiras em meninos que nos comovem. E que têm o final feliz que merecem.

Por tudo isto, A Minha Vida de Courgette é uma obra de arte.

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