Elysium é uma caricatura mandriona

Depois do excelente Distrito 9, a Sony deu 115 milhões de dólares e actores como Matt Damon e Jodie Foster a Neill Blomkamp. Elysium (2013) tinha tudo para correr bem…

Talvez por isso seja decepcionante. A história é tão banal que, ao fim de dez minutos de filme, já sabemos como se vai desenvolver e como vai acabar. Os bons são bonzinhos e os maus são mauzões. Esperamos que o argumento nos surpreenda, mas a única surpresa é que, de facto, não há nada de novo. O próprio Blomkamp admitiu, em entrevista, que Elysium tinha um argumento fraco: “Fiquei satisfeito com o aspecto visual, mas a história precisava de ser trabalhada. ‘I feel I fucked it up’”. E tem toda a razão! Mantém a imagem “suja” de Distrito 9 que confere realismo ao que se vê (mesmo que o ecrã esteja cheio de robots e efeitos especiais) e até parte de uma premissa com potencial.

Estamos em 2154 e a Terra, devido ao excesso de população e exploração intensiva dos recursos naturais está, se não a morrer, muito doente. Os habitantes mais ricos do planeta refugiaram-se numa estação gigantesca em forma de anel que orbita para lá da nossa atmosfera e que se chama Elysium. Por lá, correm rios de leite e mel e tudo é maravilhoso, abundante e sem doenças. Por cá, em excesso só há a fome, as enfermidades e o desejo de, um dia, comprar uma passagem para a Elysium ou de ir para lá a qualquer preço. Matt Damon é Max da Costa, um modesto trabalhador com um passado de delinquência que se vê envolvido num golpe para tomar a Terra Prometida. Jodie Foster é a Secretária da Defesa Delacourt cuja missão é garantir que a estação espacial se mantém um privilégio para alguns, sabendo que há biliões de pessoas dispostas a tudo para abandonar um planeta decadente.

Como dissemos, o ponto de partida é interessante. Os milhares de quilómetros que separam a Terra de Elysium são um Mediterrâneo, cemitério dos botes de refugiados que tentam em desespero chegar à Europa, ou são o muro que quer separar os Estados Unidos do México. É uma pena que esta premissa seja tão mal aproveitada. Jodie Foster é unidimensional e passa metade do tempo a defender a hierarquia do sistema e a outra metade a (também) querer tomá-lo pela força. A facilidade com que é possível fazer um golpe de Estado sobre o território mais tecnologicamente avançado de sempre e guardado por milhares de supersoldados robóticos está ao nível de um SyFy Original. Não se percebe se a estação Elysium é americana ou de uma sociedade de nações. Aparentemente é americana (há símbolos a dizer ‘US’ por todo o lado e os cargos políticos são uma emulação do Governo americano). É como se Blomkamp se tivesse esquecido do resto do mundo. Para consertar o disparate, deu à pressa um nome francês a Jodie Foster e explora até à exaustão o sotaque sul-africano de Kruger (Sharto Coplay) que, aparentemente, é o único mercenário existente no mundo.

Neill Blomkamp é um excelente realizador. O aspecto gráfico de Elysium comprova-o, mas o espectador merecia uma história muito melhor do que a caricatura mandriona que este filme nos dá.

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