O Mentor: Paul Thomas Anderson não sabe fazer maus filmes

O Mentor (2014) é um filme estranho. Há um clima de tensão evidente e que deixa o espectador em constante sobressalto, mas, visto em retrospectiva, percebemos que as cenas de violência física são raras e caricaturais. A tensão é intencional: transporta-nos para dentro das personagens. Elas são nervosas, inquietas, procuram constantemente sem nunca encontrar.

O filme de Paul Thomas Anderson conta a história de Freddie (Joaquin Phoenix), um ex-combatente da Marinha americana durante a Segunda Guerra Mundial, que fica à deriva quando volta a terra. Encontra um porto em Lancaster Dodd (Phillip Seymour Hoffman), o líder de um estranho culto que dá pelo nome de A Causa e que se dedica ao aprofundamento espiritual do ser humano. A personagem de Lancaster Dodd é baseada na figura de Ron L. Hubbard, o fundador da Igreja da Cientologia, uma das mais polémicas associações dos Estados Unidos.

O tema central que atravessa O Mentor é a procura. Já perto do seu final, Lancaster diz a Freddie que, se algum dia conseguir ser livre, sem ter um Senhor a quem servir, que o avise. Seria o primeiro ser humano a consegui-lo. No filme, todos procuram um Senhor a quem servir. Pode ser um Mentor como Dodd. Pode ser um corpo feminino, alvo do desejo dos soldados na Guerra. Pode ser a verdade, objectivo último da Causa. O sentimento de melancolia que atravessa o filme e os olhares dos actores, muito bem captado pela lente, é originado pela constatação de que, por mais intensa que seja a procura, a descoberta nunca satisfaz o espirito de quem anda perdido.

O Mentor demora a entranhar. Não é fácil. Vive muito do que se diz, do que não se vê e dos preconceitos que – conhecendo a história da Cientologia – o espectador traz consigo. Só um cineasta maior como Paul Thomas Anderson conseguiria misturar tudo isto com qualidade.

Joaquin Phoenix tem uma actuação brilhante. Phillip Seymour Hoffman (as saudades que temos dele…) proporciona-lhe uma base segura e deixa-o brilhar. Nos maneirismos (a pose com as mãos atrás das costas é excelente), os descontrolos, a fidelidade canina, as dúvidas e a loucura.

O Mentor é um ensaio de como se pode fazer bom cinema: o filme é lento, custoso no início, mas conta uma história. É-lhe fiel. Não embarca em fogos-de-artifício, que captam a atenção e nos tratam como crianças. Nem em planos presunçosos, destinados a ganhar as boas-graças dos intelectuais de pacotilha. Entretém durante um par de horas. Depois, põe-nos a pensar. Há melhor elogio?

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