O Jovem Karl Marx: 150 anos depois, há tantas lutas por travar…

A revolução russa faz 100 anos e a romantização do comunismo chegou ao cinema. O Jovem Karl Marx retrata a vida do filósofo alemão, desde os seus primeiros trabalhos em Paris até à edição do Manifesto do Partido Comunista em 1848. Apesar de o título centrar a nossa atenção em Marx, o tema central da obra de Raoul Peck (que surpreendeu com I Am Not Your Negro no ano passado) é a amizade entre este e Friedrich Engels.

Sendo um biopic, muitas das questões que O Jovem Karl Marx levanta são actuais. Mais do que desejaríamos. A desigualdade entre classes e o império do capital, aliado a uma nova revolução – desta vez não industrial, mas digital – criaram os novos pobres e os novos párias.

Há uma frase central no filme: “a propriedade controla a república ou a república controla a propriedade”. O bailout que os Estados ocidentais deram ao sistema financeiro e a reorganização das entidades políticas no pós-Lehman Brothers mostram quem venceu esta disputa.

August Diehl oferece a Karl Marx um olhar solitário e um sorriso triste. Consegue transmitir um egocentrismo, uma incomodidade perante quem o crítica, uma certa arrogância intelectual com o movimento das mãos e dos olhos. Quase sem falar. Ele e Raoul Peck constroem a figura do eremita que abdica de tudo para ser livre. Mas que não consegue perdoar-se por obrigar Jenny – a sua mulher ,numa interpretação esplendorosa de Vicky Krieps – e os seus filhos a seguirem-no numa vida de privações.

Engels, por seu lado, também tem culpas por expiar. É rico. O seu pai explora trabalhadores nas fábricas que detém. E ele não descansará enquanto não destruir essa sociedade injusta. Stefan Konarske dá à figura uma pulsão de juventude que não lhe permite aceitar meios-termos.

A necessidade de consequência entre discurso e acção é um tema omnipresente. A sucessão fervilhante de artigos, panfletos e livros que Marx, Engels, Proudhon e restantes polémicos editam faz lembrar as indignações hodiernas das redes sociais. Eles sabem que o statu quo – a burguesia exploradora ou outro demónio que a substitua – nunca cederá o seu lugar à mesa. A mudança terá de vir da revolução e essa constatação inquieta Marx e Engels. A cada livro percebem a inutilidade da publicação se não houver uma consequência. É aqui que o filme falha: oferece um Fim da História com a publicação do Manifesto do Partido Comunista que os 150 anos seguintes desmentem. No entanto, e apesar de romantizar o movimento comunista e a ideia de revolução – necessariamente sangrenta – O Jovem Karl Marx é inquietante. No bom sentido. Põe as figuras de Marx e Engels em perspectiva, dá-lhes família. São personagens tão polarizantes que estamos habituados a ficar de um lado ou do outro da barricada quando se fala deles. Neste filme são humanizados com mestria. Além disso, lembra-nos que a injustiça e a diferença de dignidade entre pessoas subsiste. Hoje. Na nossa rua. De um lado e do outro do Mediterrâneo. De um lado e do outro do paralelo 38.

O Jovem Karl Marx faz as perguntas que desejávamos ter visto respondidas há muito tempo.

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