HER: tiro falhado

Her (2013) tinha tudo a seu favor. A realização e argumento estavam a cargo de Spike Jonze, o homem por detrás de Where The Wild Things Are. Saber que Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy Adams, Rooney Mara e Olivia Wilde integravam o elenco dava garantias de excelência. Até a premissa que sustenta o argumento – um homem, de coração partido e solitário, apaixona-se pelo seu sistema operativo. E o sistema operativo por ele – é tão sedutora que queremos, imediata e instintivamente, ver este filme. Dê por onde der: há uma sensação mista de que algo está profundamente errado e de “quem nunca?”. Ah! A música é dos Arcade Fire! Dá para ser mais perfeito?

E, no entanto, Her é aborrecido (sim, eu sei que a crítica o adorou e até ganhou o Óscar para o melhor argumento original).

Theodore Twonbly (Joaquin Phoenix) é tão choninhas que quase achamos que ele merece ser infeliz. Homem, não foste o primeiro a quem o amor deu uma chapada e não serás o último! Anima-te, pá! A voz de Samantha (Scarlett Johansson) é, sem dúvida alguma, o melhor de Her. Tem uma vivacidade e alegria infantis como se estivesse a descobrir o mundo pela primeira vez. E, na verdade, é isso que lhe está a acontecer. Mas depois da aproximação inicial entre Sam e Theo, que origina momentos comoventes e de humor bem conseguidos, Her começa a descer. De intensidade, de energia e de lógica. Apenas a capacidade de Johansson em encontrar tons manipulativos e assustadores para Sam o mantém à tona de água. O final está embrulhado numa treta new age, em que os sistemas operativos partem para um mundo (ou uma dimensão ou lá o que é) melhor. Sem grandes explicações ou racionais. É um fim fácil e pouco cativante.

O tema da relação entre o homem e a máquina e de como a inteligência artificial altera a nossa compreensão do que é a consciência é fascinante, mas basta ver como o excelente Black Mirror tratou o tema para perceber que este Her foi um tiro falhado. Talvez Spinke Jonze tenha ficado tão encadeado pela luz da ideia original que não foi capaz de se mover desse momento inicial. Todo o espectador será desafiado pelas questões que o filme levanta, mas podíamos ter encontrado muito mais do que isso em Her.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s